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segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

"A eternidade e o desejo" de Inês Pedrosa

Foi o ultimo livro que li, e aconselho a quem tem problemas de "coração". Seguem-se algumas passagens que li e achei interessantes. E das quais vou fazer "biblia"!

Resumo:

«Clara, portuguesa, regressa ao Brasil onde em tempos perdeu a visão e um amor. A luz das páginas do Padre António Vieira ilumina a sua busca.»

1) «Deste discurso se segue uma conclusão tão certa, como ignorada; e é, que os Homens não amam aquilo que cuidam que amam. Porquê?... Ou porque o que amam não é o que cuidam; ou porque amam o que verdadeiramente não existe. Quem estima vidros, cuidando que são diamantes... diamantes estima e não vidros (bem aventurados os ignorantes, pois deles é o reino dos céus); quem ama defeitos, cuidando que são perfeições... perfeições ama e não defeitos. Cuidais que amas diamantesde firmeza e, na verdade, amas vidros de fragilidade! Cuidais que amas perfeições angélicas e amas imperfeições humanas. Logo os Homens não amam o que cuidam que amam. Donde também se conclui que amam o que verdadeiramente não existe; porque amam as coisas, não como são, mas antes como as imaginam. O que se imagina e não é, mãp existe no mundo.»

2) «A eternidade e o desejo são duas coisas tão parecidas, que ambas se retratam com a mesma figura. Os Egipcios no seus Hieroglifos, e antes deles os Caldeus, para representar a eternidade pintaram um O! Porque a figura circular não tem principio nem fim; e isto é ser eterno. O desejo ainda teve melhor pintor, que é a natureza. Todos os que desejam, se o afecto rompeu o silêncio e do coração passou à boca, o que pronunciam naturalmente é O.»

3) «Há chorar com lagrimas, chorar sem lágrimas e chorar com riso... Chorar com lágrimas é sinal de dor moderada; chorar sem lágrimas é sinal de maior dor; e chorar com riso é sinal de dor duma e excessiva.»

4) «A dor moderada solta as lágrimas, a grande as enxuga, as congela e as seca. Dor que pode sair pelos olhos, não é grande dor: por isso não chorava Demócrito; e como era pequena a demonstração da sua dor não só chorar com lágrimas, mas ainda sem elas, para declarar-se com o sinal maior, sempre se ria. Nada digo que seja contrário aos principios da verdadeira filosofia e da experiência, A mesma causa, quando é moderada faz ver, a excessiva faz cegar; a dor que não é excessiva, rompe em vozes, a excessiva emudece. Desta sorte a tirteza, se é moderada, faz chorar; se é excessiva, pode fazer rir; no seu contrário temos o exemplo: a alegria excessiva faz chorar e não só detila as lágrimas dos corações delicado e brandos, mas ainda dos fortes e duros.»

5) «Que coisa é a conversaõ de uma alma, senão entrar um homem dentro de si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz, e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz que é a graça; O homem concorre com os olhos, que é o conhecimento.»


6) «O melhor retrato de cada um é aquilo que escreve. O corpo retrata-se com o pincel, a Alma com a Pena!»

7)
«A minha lingua

A minha lingua cheira a ligaduras
tintas de sangue e a vinho,
ou alcool puro. Lingua macha,
derramada em desvergonha,
trolho de esperma
marcando o sabro do mar profundo.

Lingua lenta, solene e trôpega
no conversar corrido,
atulhada de doutores, excelências,
favores e obrigações,
banquete de verbos irregulares, regras mestras
maquilhadas por um cortejo de excepções.

Lingua violenta e secreta,
mafiosa, só nas trevas da página
em branco abres as pernas e
mostra o sexo.

Lingua labirinto, feita para super-heróis.
Lingua de ameias e arremosso,
combativa ardilosa como uma ponte levadiça.

Lingua declinada em musica
no fogo líquido do seu hemisfério
tropical, doendo nos gonzos
como uma porta demasiadas vezes batida.

Lingua naufraga,
flutuando no casco das palavras
quando tudo soçobra,
lingua salgada e sôfrega,
talhada pela raiva dos sobreviventes.

Lingua plástica embrulhada em panos de pedra,
lingua dura de roer, suada como um bandido,
lingua de vão de escada
com uma navalha em cada virgula
e uma gargalhada negra
vibrando nas cordas da noite.

Lingua de vaidosos escondos
gingando por atalhos e sussurros.
Lingua velha, entrapada, mal criada,
sem roupa interior nem espartilhos,
escrava do sonhos do mando,
entorpecida de incensos católicos
descaradamente puta e politica.»

Revejo-me de tal maneira neste poema que poderia adoptá-lo como meu! Só não o faço porque respeito demasiado os direitos da autora em escrevê-lo e ser reconhecida por ele! Obrigada Inês Pedrosa por me tirares as palavras da boca com tamanho poema sobre a minha pessoa!

1 comentário:

  1. Por acaso, muito por acaso fui cair dentro do teu blog, diz-se que o mundo ficou pequeno com a internet, eu acho que cresceu, ficou enorme, não sei se amadureceu porque os males do mundo e o que separa as gentes não tem cura, enfim, vivo do outro lado do atlantico, para mim o sol levanta-se sobre a agua, e para encurtar este discurso antes que se estenda até à palestina quero dizer a lingua mae que não uso, que oiço em silencio, pela tua mão grita bem alto, e era disso exactamente que eu precisava, muito obrigado

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