Como é que se ultrapassa a dor de chegar aos 35 anos e perceber que afinal os teus pais não correspondem às expectativas...Não me compreendam mal, eu sei que os pais não são perfeitos, mas têm a obrigação de ao menos amar os seus filhos incondicionalmente (acho eu)...
Chegar aos 35 anos e enfrentar a dura realidade que talvez os teus pais não te amem assim tanto como tu esperavas ou que achem que te amam, mas na realidade nada fazem para demonstrar esse amor... Como é que se ultrapassa essa dor?
Ao longo deste anos, sempre me debati com a ideia de que os meus pais se preocupavam mais com o meu irmão do que comigo... Mas parecia-me sempre uma coisa ridícula! Pensava que tinha ciumes do meu irmão e que estava em negação em relação ao facto de que apenas queria mais atenção para mim... São pensamentos normais de crianças e adolescentes e isso iria passar com o tempo...
Chegada aos 35 anos, afinal, continua a haver uma preocupação excessiva com alguém que pouco se preocupa com o bem estar deles... Ainda se preocupam com o que é que ele vai levar para o almoço ou o jantar no trabalho (apesar de ele já ter 34 anos), se tem ou não roupa para vestir, se tem dinheiro ou até se tem a cama feita...
Nunca esse tipo de preocupações foram dirigidas a mim, até porque no entender deles, sou uma pessoa muito independente e inteligente e não devo precisar destas coisas...
Claro, que filho precisa de actos dos pais que provem que eles realmente os amam... As palavras chegam, não é!!!
Sempre fui um pouco a ovelha negra da família... Falo alto, rio-me alto, tenho opiniões...
Por causa disso sempre fui mandada baixar a voz, calar-me ou até chamada de estupida só porque tinha decidido dar a minha opinião...
Não minha família, o meu pai manda e todos os outros obedecem... Baixam a cabecinha e dizem que sim, não vá o menino mimado irritar-se porque as coisas não estão a ser feitas como ele quer...
A minha mãe é um ser meio ausente no meio disto tudo... É epiléptica, como tal doente dos nervos e "não se deve" enervar... Como tal usa-se a desculpa de não se discutir porque ela não se pode enervar...
Durante muitos anos isso resultou... O meu pai conseguiu manter-nos "calminhos" para não "enervar" a mãe e conseguiu gerir as coisas (mal geridas na minha opinião) à maneira dele...
Há uns anos o meu avô paterno morreu, deixando tudo ao meu pai que logo começou à procura de uma casa maior para viver... 4 pessoas a viver num T2 estava a ficar insuportável... A casa escolhida foi uma casa cara (T3), com terraço para a cadela (coisa que a coitadinha nem utiliza porque as portas tão quase sempre fechadas) e muitas comodidades... Sem olhar a despesas não aceitou opiniões... Mentira... Só aceitava opiniões se estas fossem para o apoiar, caso contrário estávamos a ser negativistas e egoístas... A casa foi comprada... O emprego do meu pai entretanto foi-se e ficou difícil fazer face às despesas elevadas criadas por uma casa para acomodar 4 pessoas que um dia serão só 2 e os pedidos de ajuda começaram... Até ao dia que veio o ultimato, ou ajudam ou perdemos a casa...
Eu, tal como sempre, dispus-me a ajudar... Mas nos meus termos, ofereci-me para pagar 2 contas, enquanto me fosse possível, para podermos manter a casa, para que os meus pais não ficassem sem tecto...
O mesmo foi pedido ao meu irmão, nos primeiros meses houve alguma ajuda... Mas desde lá até cá parece-me que a ajuda tem sido apenas da minha parte...
Entretanto eu também perdi o meu trabalho fixo, mas como tenho uma associação com um amigo, vou tendo trabalho e algum dinheiro para poder continuar a pagar as tais contas que me comprometi a pagar aos meus pais...
Estou há quase um mês fora de casa em trabalho, desde que sai de casa, nem 1 telefonema (mas eu continuo a pagar as contas), as sms, essas vão rareando, ao ponto de receber 1 sms por semana a perguntar se está tudo bem... Muitas das vezes nem vontade tenho de responder...
Estou a ver isto mal ou merecia um pouco mais de consideração?
No resumo da minha vida, muita coisa falta! Devo a minha vida aos meus pais, eu sei... Mas eu não pedi para nascer... Eu não pedi para estar aqui... O mínimo que poderiam fazer era preocupar-se comigo não???
Como é que se sobrevive à dúvida do amor incondicional dos nossos pais?
Como se sobrevive há dúvida de que os teus pais podem não dar a vida por ti, como deveria ser... Não é isso ser pai? Não é isso a família?
Sei que não deveria cobrar, mas como não o fazer à face de tais acontecimentos?
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